skip to Main Content
Complexos

Complexos

Complexos por si são objetos psíquicos compostos de um núcleo dual- o arquetípico e o imagético – um trauma raíz. A partir daquele núcleo, outras imagens cheias de emoção, associadas a imagem primordial vão se acoplando e compondo, metaforicamente, uma cebola. Um grande composto de imagens cheias de emoção associadas à uma experiência traumática inicial, muitas vezes inconsciente e na grande maioria, que ocorreu na pequena infância.

OK. E o que isso tem a ver comigo?

Bom, quando você diz “eu”, você está se referindo ao Ego. O ego, também é um complexo, pois ele tem seu núcleo arquetípico, ou seja, é uma experiência humana universal. Todo mundo tem um ego. Todo mundo diz “eu” quando se refere a si-próprio. E o ego tem que lidar com algumas realidades. Uma delas é a externa – feita de pessoas e coisas. A outra é a realidade interna, povoada de complexos que interagem com o ego tanto quanto a realidade externa. Jung percebeu a existência dos complexos e os trouxe a luz da ciência observando que o “homem racional”, a imagem utópica com a qual as pessoas se relacionam, o como uma pessoa deve ser ou não, está muito distante da realidade funcional do ser humano. A natureza do ser humano, e aquilo que está de acordo com um caminho mais natural, e concomitante, mais verdadeiro e saudável, é diferente das exigências da mente. Somos seres primordialmente emocionais, e a realidade emocional é diferente da racional. Dr. Stein clarifica dizendo que “existem, porém, outras perturbações de consciência que não estão claramente vinculadas a quaisquer causas ambientais e são totalmente desproporcionais em face dos estímulos observáveis. Essas perturbações não são primariamente causadas por colisões externas e sim internas. As pessoas enlouquecem às vezes, com poucos motivos aparentes. Ou têm bizarras experiências imaginárias internas que redundam em formas inexplicáveis de comportamento. Tornam-se psicóticas, têm alucinações, sonham ou ficam pura e simplesmente loucas, ou apaixonam-se, ou são dominadas por uma fúria incontrolável. (…) Os humanos são impelidos por forças psíquicas, motivados por pensamentos que não se baseiam em processos racionais, e sujeitos a imagens e influências para além daquelas que podem ser medidas no meio ambiente observável”.

Jung estudou afundo como ocorria a interação do ego com esses complexos, e ele percebeu que esses complexos se “constelam”; eles podem ser ativados. Através de seu genial Experimento de Associação Verbal Jung percebeu que “há, de fato, entidades psíquicas fora da consciência, as quais existem como objetos que, semelhantes satélites, gravitam em torno da consciência do ego mas são capazes de causar perturbações do ego de uma forma surpreendente e , por vezes, irresistível” Jung em sua famosa entrevista à BBC traz a metáfora de que “não sou o único mestre de minha casa”.

E como isso funciona na prática?

Falando de uma forma mais simples… todos temos gatilhos e esses gatilhos acionam nossos complexos. Aquele apelido que você odeia, aquela frase que você não suporta escutar, aquela palavra que te fere de forma específica. Aquele desejo que sempre te pega na curva. Um doce que sempre te convence a comê-lo.Muitas coisas podem servir como gatilhos. O ponto é que esse gatilho ativa o complexo, e o complexo é constelado. “Por vivências pessoais, todos sabemos o que significa estar constelado. Isso ocorre num espectro que vai desde estar levemente ansioso até ficar perdidamente angustiado e, transpondo todos os limites, cair na loucura. Quando um complexo está constelado, a pessoa é ameaçada com a perda de controle sobre suas emoções e, em certa medida, também sobre seu comportamento. Ela reage irracionalmente e, com frequência, lamenta-o, arrepende-se ou pensa melhor sobre o que fazer na próxima oportunidade.(…) Quando constelada, é como se a pessoa estivesse em poder de um demônio, uma força muito superior à sua vontade. Isso gera um sentimento de impotência. Mesmo que a pessoa se observe enquanto está se tornando vítima relutante de uma compulsão interior para dizer ou fazer alguma coisa que ela sabe que seria preferível deixar por dizer ou fazer, o roteiro desenrola-se como previsto, e as palavras são ditas, os atos são realizados”.

Uma vez constelado, o complexo irrompe na superfície da consciência e acaba por drenar aquela energia, que em uma melhor situação, estaria disponível para o ego. Acabamos então, por ser marionetes de nós mesmos. E realmente somos. Sinto lhe dizer, mas os complexos povoam o que o Jung chama de Inconsciente pessoal, que tem como complexo central, a famosa, Sombra. Vivemos grande parte do dia movidos por nossos complexos. O que acontece é que o ego é possuído pelo complexo sem saber e, acaba por se apropriar da “vontade” do complexo. Isso é chamado de acting out.”As pessoas que convertem em ação impulsos reprimidos [acting out significa precisamente “passagem ao ato”] não se apercebem, com frequência, de que é isso o que está acontecendo. Elas estão simplesmente in the mood, quer dizer, com vontade de fazer, de concretizar através do comportamento algo que lhes parece congruente com o ego. Mas essa é a natureza da possessão: o ego é ludibriado ao ser induzido a pensar que está dando livre expressão a si mesmo. Só em retrospecto uma pessoa se dá conta de que “Algo se apossou de mim e me fez fazer isso. Eu não sabia o que estava fazendo!”.Fazemos isso o dia inteiro. Somos movidos por nossas vontades e nossos desejos. A grande pergunta é: suas vontades e desejos, suas metas e sonhos, seus planejamentos e ideais – são seus ou de seus complexos?

OK. E como eu resolvo isso, se é que isso da para ser resolvido?

Isso não é algo a “ser resolvido”, mas sim para ser integrado. Assim como temos de nos adaptar e lidar com o mundo externo, temos de lidar com nosso mundo interno também. E o trabalho com os complexos compõe grande parte do trabalho em um processo de análise junguiana. Pois aqueles mesmo complexos que te interditam na vida, te frustam e drenam sua energia podem também, te impulsionar se integrados.

Gabriel Cop Luciano

Referência Bibliográfica:
STEIN, Murray. Jung – O Mapa da alma. SP: Cutrix, 2000

Comentários

Back To Top